Amém, automóvel


contrapublicidade do [ConsumeHastaMorir]

Da praça fez-se a rua. Da calçada, o estacionamento. Louvemos ao Deus Carro pela desgraça alcançada.O espaço público é nosso altar cotidiano de sacrifícios. Oferecemos quatro vidas por dia em colisões e atropelamentos. Outras oito são entregues através de doenças respiratórias, problemas no coração, câncer e outros tipos de mortes lentas.

Também oferecemos o sacrifício diário dos que seguem vivos: penitentes castigados com muitas horas de trânsito, baixa qualidade de vida, péssimo acesso à cidade e ao espaço público.

Castigamos os infiéis (ou inferiores) com a degradação brutal do transporte público, com as calçadas-minadas, esburacadas, inexistentes ou ocupadas por nossas máquinas sagradas. Castigamos os rebeldes privando-lhes de ciclovias, ciclofaixas, semáforos de pedestres, respeito e transporte público durante a noite.

Oferecemos nossas riquezas para tratar feridos e enterrar os mortos. Gastamos o dinheiro de todos para beneficiar alguns: recapeamos e asfaltamos ruas, construimos viadutos, pontes e avenidas.

O Deus Carro é guloso por espaço; estimula luxúria, vaidade, avareza e orgulho através dos estímulos de consumo instantaneamente renovados pela máquina da propaganda; gera preguiça e ira em quem dirige e transforma toda a cidade em um verdadeiro inferno para vender o único Céu possível: o Sagrado Coração de metal, plástico e vidro.

Tanto no Céu, quanto na Terra. Poluímos o ar e derretemos o planeta. Destruimos bairros e comunidades inteiras para acomodar o fluxo e o estacionamento de um número cada vez mais insano de veículos. A cidade espalhada, segregada e agressiva é o território fértil para a manutenção da nossa fé. Acreditamos no medo, evitamos a convivência, odiamos aquele que se coloca à nossa frente como obstáculo para a velocidade vendida no comercial de tevê.

O Deus Carro e sua parceira Especulação espalharam a cidade, criaram imensos vazios urbanos, condomínios fechados e shoppings centers, tudo com amplo estacionamento ou manobrista no local. A rua é de ninguém, espaço poluído e abandonado que serve apenas para circularmos com nossa fé sobre quatro rodas. Amém, automóvel!

“Só não é uma religião porque ninguém consegue seguir”
(reprodução de apologia publicitária à velocidade assassina em revista)

* Vidros escuros acima do permitido pela lei meramente ilustrativos.
** Chamas na parte traseira só em caso de “acidente” provocado pelo excesso de velocidade.

4 Comments

  1. debici
    Posted 27/12/2006 at 12h37 | Permalink

    Poxa, Luddista! BEM legal! Valeu mesmo!

  2. ddmp01
    Posted 26/07/2008 at 20h26 | Permalink

    Excelente texto. Não apenas informativo. Mas do ponto de vista literário, mesmo.
    Paulo Avelino

  3. Bolivar
    Posted 26/07/2008 at 20h39 | Permalink

    É cada vez maior o número de pessoas inteligentes percebendo a roubada q é o automóvel…

  4. Paulo
    Posted 07/09/2008 at 14h28 | Permalink

    ois, mto bom esse agito todo em torno das bikes. Parabens. E to nessa!
    Escrevo pq dia 22 começa um evento na Usp sobre Arte & Meio Ambiente. Queria saber se rola um grupo por la, dentro ou fora, pra fazer um pedal, um agito. Meu contato é pedrocha66@hotmail.com. Abraços, Paulo

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  1. […] Enquanto os olhos vermelhos, a tosse e as doenças respiratórias se multiplicam exponencialmente em todos os cantos da cidade, segue em curso a poderosa tática de desinformação para preservar o sagrado automóvel. […]

  2. […] Enquanto os olhos vermelhos, a tosse e as doenças respiratórias se multiplicam exponencialmente em todos os cantos da cidade, segue em curso a poderosa tática de desinformação para preservar o sagrado automóvel. […]

  3. […] é difícil encontrar um governante que tope “comprar briga” com a minoria motorizada o Deus Carro, restringir a circulação de motores durante um dia ou ao menos dizer que o automóvel e seu uso […]

  4. […] é difícil encontrar um governante que tope “comprar briga” com a minoria motorizada o Deus Carro, restringir a circulação de motores durante um dia ou ao menos dizer que o automóvel e seu uso […]

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