Notícias de uma guerra pública

foto: tiago nepomuceno

No último sábado (27), a quarta Ghost Bike de São Paulo foi instalada na avenida Vereador José Diniz. As “bicicletas fantasma” são homenagens feitas em diversas cidades do mundo: uma bicicleta branca é colocada nos locais onde ciclistas foram mortos em incidentes de trânsito.

A homenagem de sábado foi em memória do Sr. Manoel Pereira Torres, morto no dia 20 de março por um motociclista que ultrapassou o sinal vermelho em alta velocidade e atingiu o “seu” Manoel na faixa de pedestres.

Manoel, de 53 anos, utilizava a bicicleta para ir ao trabalho todos os dias, saindo da Favela da Paz (Interlagos) até o bairro do Itaim.

A guerra invisível que mata pessoas que estavam apenas indo e vindo é a maior causa de mortes não naturais no estado de São Paulo, superando os homicídios. Em 2009, 69 ciclistas perderam a vida em incidentes de trânsito.

foto: vá de bike

O silêncio e a invisibilidade quanto à barbárie nas ruas é tão brutal quanto a pancada de algumas toneladas de aço em um corpo desprotegido.

Não há nada de acidental nestas mortes: elas são causadas pela estupidez ao volante, pelo estímulo à velocidade, pela impunidade dos que matam portando máquinas de deslocamento, pela indústria das carteiras de habilitação e pelo estado de tensão permanente de um trânsito imóvel em uma cidade onde reina a má distribuição geográfica de bem-estar, oportunidades de trabalho, cultura e lazer.

“Seu” Manoel foi morto por uma moto. Guy Debord afirmou que as motocicletas são subprodutos dos automóveis. Fica fácil entender o que dizia o francês ao olhar para a cidade que, até a década de 90, tinha office-boys usando transporte público para transportar documentos: é a urgência do congestionamento a responsável pela institucionalização do motoboy. Da mesma forma, é o número excessivo de veículos particulares que torna necessários os corredores de ônibus.

O ciclo vicioso desta guerra invisível precisa cessar. Não é possível perpetuar a lógica insustentável de mais carros, mais congestionamento, mais agressividade, mais mortes, mais infra-estrutura para carros, mais carros, mais congestionamento, mais agressividade, mais mortes…

O ciclista pertence às ruas. Não há cidade no mundo em que o tráfego de bicicletas aconteça apenas em ciclovias ou ciclofaixas. Compartilhar a rua e respeitar a vida é preciso e deve estar acima de tudo. Infelizmente, isso nunca foi dito aos motoristas, que só escutam falar em velocidade, potência e  maneiras de “se dar bem” com um carro.

relato da instalação da Ghost Bike em homenagem ao Sr. Manoel – vá de bike
fotos – tiago nepomuceno
fotos – willian cruz
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ghostbikes.org

6 Comments

  1. Posted 29/03/2010 at 23h37 | Permalink

    Excelente artigo, quando preciso ler além do jornal.
    Indústria das CNH, documento que a maioria da sociedade usa para se identificar pois, tem o nº do CPF, do RG e os nomes dos pais, sabem o que vou fazer? Carregarei peso, isso mesmo, portarei meu RG e meu CPF, deixarei a minha CNH na gaveta para o caso de uma emergência aqui em casa.
    Abraços

  2. Posted 29/03/2010 at 23h41 | Permalink

    cont.: que os amigos desconhecidos que morreram estejam em paz, e nos dêem fé para continuar na luta do dia-a-dia, na cidade mais de aço do que pedra.

  3. Daniel Bianchi
    Posted 30/03/2010 at 9h15 | Permalink

    Tenho medo! Tenho medo?! Infelizmente tenho que dizer que não uso mais a bicicleta como meio de transporte. Eu amo bicicleta, eu amo a vida. Quando ando de bicicleta me sinto mais vivo, mais feliz, e mais humano. Parei de utilizar minha querida magrela para ir ao meu emprego. Por duas vezes quase minha pequena filha me perdeu. A primeira aconteceu na cidade universitária, uma viatura policial bateu no meu pneu dianteiro, só para me ultrapassar. A segunda eu subia a ponte Cidade Jardim (que nome!!) e um ônibus ao meu lado me empurrou e me tocou mesmo que um segundo antes, eu e o motorista tivemos, contato visual olhos nos olhos pelo espelho retrovisor. Que eu faço? Não ando mais com minha querida magrela e morro pouco a pouco ou ando e morro por completo?

  4. Posted 30/03/2010 at 10h01 | Permalink

    Texto muito bem escrito. Uso a bike para ir trabalhar e já passei diversos apuros, tive até um carro literalmente jogado em cima de mim porque, segundo o motorista “eu buzinei e você não tirou essa merda da frente”. É preciso um basta em tanta violência e uma alternativa para o transporte.

  5. Posted 31/03/2010 at 10h45 | Permalink

    Pessoal

    Desistir jamais. Temos que ficar firmes, ocupar espaço para prevenir fechadas e finas, sinalizar para mostrar que sabemos o que estamos fazendo, abrir mão de preferenciais e pular para a calçada para evitar colisões (mesmo que estejamos no direito de passar), e quebrar o vidro d@ maldit@ com uma U-Lock sempre que as anteriores falharem.

    Obrigado,
    Gunnar

  6. Yan
    Posted 31/03/2010 at 16h32 | Permalink

    Triste. Uso bike para ir ao trabalho todos os dias. Quase virei sanduiche hoje, de um lado um caminhão de entulho, do outro uma fileira de carros estacionados. Com a rua estreita pelos carros estacionados fica quase impossivel termos alguma segurança. É o que mais me incomoda, carros estacionados em via publica que não favorecem o fluxo de nenhuma maneira.